✑ Separação

Gritei!
Gritaste!
E as palavras chocaram-se no ar,
espalhando letras por todos os lados.
Até na cozinha foi parar um i.
Talvez o i de nossa intolerância.

O v das pequenas vinganças
foi parar no quarto
junto  ao p da perfídia
e ao o do orgulho.

Numa curva da estrada da vida,
percebemos que alguma coisa
se gastou.
Que o céu de estrelas era de papel.
Um céu inventado, frágil, sem suporte.

O grito acontece quando não há verdade.

O sol que nos iluminava apagou-se;
estava ligado a uma tomada.
As batidas do coração
foram baixadas da internet
em formato mp3.

Falsas.

O grito acontece quando queremos
que a mentira prevaleça
como verdade.

As malas estão prontas.
A porta está ali.
E são reais.
A vida lá fora é real.

Já não temos mais idade
para inventar coisa alguma.
Vivemos da realidade
que conseguimos manter de pé
a trancos e barrancos.

Eu não tenho culpa se tu...

Bem... não vamos começar
tudo de novo.

Afinal... a porta está aberta
e as malas estão prontas.
Não há nada para vir buscar depois.

Nem uma lembrança doce.

Não vou dar nenhum passeio pela casa.

Não quero sentir cheiro de nenhum cômodo.

Esta é a última curva da estrada.
O restante haverá de ser uma linha reta.
Uma estrada real, dura, sólida.
Mas uma estrada de sol.

Fica tu com tuas verdades,
que eu me vou com as minhas.
Há pássaros cantando nas árvores,
há perfume de flores na praça central.
Há marulhar de água
na fonte de cimento.

O amor?
Não sei.
Se ainda existir,
hei de encontrá-lo.

Enquanto isso,
tu ficas aí catando as letras,
ou deixa-as por aí até que caiam
na sopa do Fernando
e virem poema,
o que seria melhor.

Tenta com elas
inventar alguma coisa
mais durável.
Ou dizer coisas mais sensatas.

Usa o i de intolerância
para dizer... intimidade!
Mas de uma coisa te advirto:
não usarei o s para dizer...
saudade.

E com esta...
me vou.

Para sempre!

Dado Carvalho
17.10.2010 – 20:40h

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