✑ Incêndio

Quando senti cheiro de palavras queimadas,
julguei que alguém ficara mudo.

Procurei entre as cinzas uma ou outra letra;
quem sabe uma sílaba que fosse.
Nada. Apenas cascas de frases carbonizadas.

As coisas que você não me disse.
Palavras que se calaram em sua boca.
Preferiu incendiá-las a dizer-mas.

Não me importo.
Também fiz minha fogueira particular
e toquei fogo nos meus sonhos,
em todos os sonhos em que havia você.

Restaram-me apenas a realidade do dia-a-dia,
coisas simples como uma caneca d’água,
lamparina de querosene, prato de ágata,
panela de ferro e... meu bilboquê.

Coisas velhas, mas ainda servíveis,
fieis a seus donos.

Queime mais alguma coisa,
aproveite que ainda há brasas vivas
que restaram de seu incêndio.

Queime seu orgulho, seu narcisismo,
toque fogo no seu espelho,
se tiver coragem.

Tenho um riacho que murmura a meus pés,
e sua linguagem livre é única.
Não há fogo que destrua suas palavras.
Ouço-as e entendo-as.

Sou, com o riacho, o que nunca pude ser com você:
cúmplice.


DADO CARVALHO
23.11.2012 – 23:40h

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